terça-feira, 26 de julho de 2011

Melodia

Centrado, seu foco lhe exigia visão, energia e tato no que satisfazia sua audição. A quase interminável lista de músicas, que lhe trazia a memória dos tempos em que ele não sabia da minha ou da sua existência ali, sentados, ouvindo, pensando, nascendo. Fecha os olhos para enxergar melhor, se move, e se lembra de certo resto que lhe deixava com cara de desinteresse do mundo, que cansado esquece, para encontrar em um mundo só seu, tijolos que escalou no caminho até aqui. E a letra de uma das músicas o faz contar a história da cabeça cortada de Lampião, descrevendo a angústia de cabeças fora de seus corpos, que tremidos eram assistidos pela mente flutuante insistente em continuar a respirar ainda que sem pulmão. E apesar de minha comum náusea demonstrada a contos como esse, enxerguei qualquer outra coisa nele que me fez ouvir a história e achá-la interessante, talvez até uma boa história para se recontar. Tudo porque seus olhos traziam beleza a sua fala, que o fazia gesticular, se perder nas suas próprias palavras e voltar-se a qualquer outra canção. Não importava qual. Envolvido na busca do que já havia encontrado e descobrindo o que já conhecia bem, revia e reiventava. Ele era uma canção agora. E eu me perdendo na melodia que ele criava, com seu jeito de acompanhar suas músicas preferidas, mexendo os pés e franzindo a testa, da forma que me delicia assistir. Troca as mãos entre gaita e violão, os instrumentos que quando toca, queria saber porque, me faz de coração acelerado e pouca respiração. E devagar, enquanto pego meu caderno e começo a rabiscar sobre o que ele fazia faiscar nos meus olhos, do meu jeito, também viro canção.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Regando...

Talvez agora sinto odiar a rima, a sonoridade harmônica de palavras bem colocadas, o encaixe, o saber muito bem o que dizer. Procuro o caos? É isso que venho a fazer? Já nem dou mais ouvidos aos meus conflitos, tão costumeiros e bem ensaiados, só me trazem tédio, distanciamento, gritos tão silenciosos. Desisto e não acho ruim. Desisto, que alívio isso me dá! Eu não acostumo ficar longe das horas de quietude da madrugada, com seus ares azuis, tão diferente de uma tarde silenciosa e carregada de mormaço, ou de uma manhã quente em uma sala com ar condicionado. Nada se compara ao silenciar de mentes e da natureza, quando tudo ou quase tudo está parado, tudo o suficiente, acho. Como se eu existisse sozinha, talvez. Eu, meus devaneios e minhas palavras desorganizadas, com rimas acidentais, as únicas rimas que não sinto odiar, porque florescem apenas, não foram calculadas, encaixadas, nada disso. Elas existem como botões de flores que insistem em nascer onde não se imaginaria ou como capim que cresce rachando o chão de concreto. Não precisaria ser plantado, regado, esperado, lá está de repente, regado à sua própria natureza, nascendo inesperadamente. Penso como seria regar apenas, sem aguardar angustiadamente pelas flores tão desejadas. Regar em qualquer lugar, sem seguir manuais de jardinagem, botânica ou qualquer outro tipo de receita, e se surpreender com a infinita possibilidade do nascimento de flores talvez nunca vistas, nunca admiradas. Regar apenas, sem depositar as sementes definidas dos nossos planos e idealizações. Regar o portão de casa com um "bem-vindo" e uma carranca, regar a si mesmo com os mantras e orações que tocam o próprio coração, regar pessoas que não goste com um sorriso de bandeira branca, regar cômodos da sua casa com janelas abertas para receber o Sol, regar a dificuldade com paciência e sabedoria, regar os olhos com um pouco mais de cor e outras formas de enxergar, regar o trabalho com amor, gratidão, criatividade, regar o amor com rimas improvisadas. Desisto das sementes e tudo pré-programado nelas, todas as ideias e desejos que nela deposito, todas as angústias e expectativas, a pressão, a pressa, o objetivo sem apreciar o caminho, desisto delas e que alívio isso me dá. No caminhar, no pensar, no amar, no viver. Vou apenas regar.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Bom Moço

Começar pode parecer difícil, até que se percebe que já começou e que se está em meio a qualquer coisa sem muita cara de início. Não parece mais aquele começo tateado devagar, com dedos cuidadosos e cheios de antigas formas de sentir. Parece meio caminho andado, acostumado, íntimo e desprendido do que se acreditava acreditar. Qualquer coisa que me faz pensar e escrever como se estivesse criando uma canção, afinando meus sentidos, renovando meus suspiros. Tempo parado, pilha de apostilas para estudar, pilha de roupas para organizar, pilha de razões para o estresse ou qualquer um desses males contemporâneos. E eu gastando meu tempo sorrindo sem pressa e perdendo a hora por aí. Não se sabe bem do começo. Na verdade, quando se dá conta dele, já o vê passando entre dedos, palavras e respiração pouco contida. O olhar adocicado, talvez. Com ar de querer bem. É olhar preenchido das coisas que iluminam a alma, terno e afinado. É olhar que enxerga e se mostra em contraste com a barba serrada e sem falhas, que se abre em um sorriso que me faz ter vontade de abraçar. Mãos que de tão grandes bastava uma para me segurar, que me toma e me faz inteira por sentir caber em uma só. Mas ele usa as duas, porque ele também é inteiro. E inteiros, a gente brinca de ser metade, mesmo sabendo que em partes não nos fazemos. Inteiros, cada um no seu espaço, tempo e vibração. Se enlaça, se sente, se dispõe. Na conversa de varanda bem arejada, na canção suave e bem harmonizada, nos olhos fechados que eu insisto em entreabrir pra espiar e decorar detalhes. No caminho mais longo de volta pra casa, tão felizmente demorado, que às vezes parece até passar muito rápido. Com nome que parece pedir rima em alguma poesia de versos fortes e bem construídos. Me faz pensar em personagem preferido de história bem contada, que se ouve prazerosamente, se assiste incansavelmente e dá até a impressão de que poderia ter sido por mim criado, não fossem suas palavras, gestos e canções tão encantadoramente inesperados.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Sede

Meus dedos enferrujados tentam escrever o que meu olhar gritou todos os dias e você mal ouviu. Mas os deixo fluir em sua mais completa forma desregrada. Pouco importa o que dirão, pouco dizem porque assim me faço: de poucas palavras e muitos olhares. A tarde insistiu, pareceu durar como um dia inteiro. O Sol baixou e não percebemos, foi tudo embora: Sol, nuvem, arco-íris e aquele cheiro de sombra e água fresca. Chegou a hora de caminhar, criar, recriar, essa coisa toda de sonhos, perspectivas, opiniões, nesse momento não lhe parece tudo balela? Que importa? O céu se fez estrelado por hora, não quero saber quantas razões tem em fazer o que insisti em chamar de estúpido. Caminhe apenas, segure minha mão, me abrace de surpresa, cante alguma coisa, esqueça. Faz de conta que você fica a tempo de assistirmos mais alguns arco-íris, depois eu posso te ensinar a ouvir as plantas enquanto você me ensina a cozinhar. Mas faça somente de conta, em uma conta sem resultados exatos e pré-meditados nos conte, nos lembre, não importa que não continuará acontecendo, o que tinha para acontecer soube se fazer em completos e belos momentos, tão inteiros que não pedem condições. Agora caminhe apenas, não precisa me seguir, nem me peça para ensaiar seus passos, vá seguindo. Deixe tocar nossa trilha sonora poética quase sem romance, nosso abraço sem laço, nosso silêncio todo em suspiro. Continuo. Mais tarde me sirvo com uma próxima dose, quem sabe dessa vez me embreague.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

(Des)Encontro

O que nunca ia embora, que ficava para sempre, que vivia no meu final feliz. Mal se deu no meu começo.
Eu que desisti do cor-de-rosa e das frases de efeito. Fui embora entre clichês dores de coração partido e ânsia de novas sensações.

O que ficou, pra que eu fosse embora.
O que foi embora, por não saber ficar.
O que ficou, mesmo indo embora.
O que está indo, mesmo querendo ficar.

Que distância há entre o pra sempre e o nunca mais?
Quem me garante que os suspiros e olhos brilhantes de hoje não vão se tornar futuras palavras empoeiradas?
Que se deixam esquecer pra que eu possa de novo terminar.
Que distância há entre certezas e o desconhecido?
Que terminam pra que eu possa de novo começar.

Me vê, me canta, me decifra. E não faz idéia de quem sou.
Me segura, me prende, me chora. E não sabe me sentir.
Me idolatra, me espera, me sorri. E nunca me enxergou.
Me ama, porque não devia.

Onde me começa? Onde me termina?

terça-feira, 1 de junho de 2010

O sentido sentimento que aprendeu a sentir...

Tentei palavras, estrelas e intuição. Interroga, pensa, decide, planeja, desfaz, refaz, tudo de novo. E voltam as canções, poesias encontradas, lembranças quase não lembradas. Cotidiano não existe mais, vai se esvaindo feita poeira e vento em dia ensolarado. Suspiros não se fazem mais, foram se transformando em respiração calma, contida e calculada. Os vícios foram trocados, os hábitos deixados, a certeza só existe agora em dicionário. Já se sabe o que pensar, o que sentir, o que dizer. Não se pensa, nem diz, mas o sentir foi se fazendo presente, feito o presentear bonito que faz dos olhos iluminados. Sente, muito se sente. Feito se faz com todos os sentidos, feito se sente por inteiro, como se fosse um sentido só. Não é sentimento que reaparece de repente com pequenos estalos de recordações, não é sentimento que se deixa guardado, todo feito de espera pra um dia continuar esperando, nem é sentimento de ida ou de volta, muito menos que fica ou que promete ficar. É sentimento que se faz no simples fato de sentir. Sentimento que não é parte, mas se sente parte, não é todo, mas se espalha por todo lugar, não é esperado, mas não vê a hora de se chegar.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Tempo Bom

Reli suas palavras, rimas, olhares. Reli você. E cada vez que faço isso encontro novo detalhe, vírgulas que passaram despercebidas, outros sentidos e diferentes formas de te ver. Hoje já não sou a mesma, nem você parou no tempo, bem sei. Agora resolvi variar as cores do esmalte, renovar os objetos guardados em gavetas empoeiradas, jogar fora diários antigos tão cheios de palavras desconhecidas. Hoje o dia é novo, como todos os dias que ainda não aconteceram. Não sei a freqüência com que você limpa suas prateleiras de pensamento, nem o que já não te serve mais.
Não sabemos o que surge aos nossos olhos como estrelas cadentes, que nos faz fazer pedidos para nuvens carregadas e barulhentas, não se explica um inevitável tempo ruim, ser visto como um tempo tão bom.
A temperatura não está no ar, ditada cotidianamente no noticiário. Ela faísca em sorrisos calorosos, enternece em olhos marejados, cai em lágrimas salgadas e sem pressa. Está na maneira que aprendemos a enxergar e sentir o mundo.
Seja em que tempo for, há olhos de jardins sempre regados, que aprenderam a usar o coração para assistir as suas próprias estrelas. E sendo jardim, estrela, chuva ou vento, seja em que tempo for, será sempre um bom tempo, será sempre a tempo.