terça-feira, 26 de julho de 2011

Melodia

Centrado, seu foco lhe exigia visão, energia e tato no que satisfazia sua audição. A quase interminável lista de músicas, que lhe trazia a memória dos tempos em que ele não sabia da minha ou da sua existência ali, sentados, ouvindo, pensando, nascendo. Fecha os olhos para enxergar melhor, se move, e se lembra de certo resto que lhe deixava com cara de desinteresse do mundo, que cansado esquece, para encontrar em um mundo só seu, tijolos que escalou no caminho até aqui. E a letra de uma das músicas o faz contar a história da cabeça cortada de Lampião, descrevendo a angústia de cabeças fora de seus corpos, que tremidos eram assistidos pela mente flutuante insistente em continuar a respirar ainda que sem pulmão. E apesar de minha comum náusea demonstrada a contos como esse, enxerguei qualquer outra coisa nele que me fez ouvir a história e achá-la interessante, talvez até uma boa história para se recontar. Tudo porque seus olhos traziam beleza a sua fala, que o fazia gesticular, se perder nas suas próprias palavras e voltar-se a qualquer outra canção. Não importava qual. Envolvido na busca do que já havia encontrado e descobrindo o que já conhecia bem, revia e reiventava. Ele era uma canção agora. E eu me perdendo na melodia que ele criava, com seu jeito de acompanhar suas músicas preferidas, mexendo os pés e franzindo a testa, da forma que me delicia assistir. Troca as mãos entre gaita e violão, os instrumentos que quando toca, queria saber porque, me faz de coração acelerado e pouca respiração. E devagar, enquanto pego meu caderno e começo a rabiscar sobre o que ele fazia faiscar nos meus olhos, do meu jeito, também viro canção.

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